terça-feira, maio 28

Jovem é internada com infecção urinária e tem pés e mãos amputados: “Feliz só de estar viva”

 

Gabrielle Barbosa, de 20 anos, fala após cirurgia e relata expectativas para o futuro


Foto: Reprodução


A primeira vez que Gabrielle Barbosa teve infecção urinária,
em dezembro de 2022, foi também o seu primeiro sinal de alerta. Aos 20
anos, ela diz que nunca havia ficado doente e, por isso, sequer sabia
ingerir um comprimido.

Na época, procurou ajuda médica e tomou antibiótico, mas não conseguiu
tirar o problema da cabeça. Um mês depois, voltou ao hospital para fazer
exames e foi informada que estava tudo bem. Então, decidiu seguir a
vida — até ser pega de surpresa em março, quando descobriu um quadro de
infecção generalizada que terminou com a amputação de seus pés e mãos.

— Um dia, senti dor no rim no meio do trabalho e corri para o
hospital, mas lá eles trataram como cólica renal. Me colocaram no soro,
só que eu vomitava muito — disse Gabrielle ao Globo. — Fiz exames e
vimos que minha infecção já tinha se espalhado. Os médicos falam, hoje,
que ali eu já não deveria ter ido embora, mas naquele dia me mandaram
para casa. Só que, quando cheguei lá, desmaiei e minha mãe chamou o
Samu. Minha saturação estava baixa.

A partir daquele momento, ela precisou lidar com outro desafio: a
falta de vaga no hospital. Moradora de Franca, em São Paulo, ela conta
que recorreu ao hospital da cidade, mas ficou no corredor do local antes
de ser encaminhada para uma “salinha”, como se tivessem “montado uma
UTI” improvisada. Ao mesmo tempo, os médicos tentavam estabilizar a
pressão dela. Sem sucesso, disseram que “iam pedir uma vaga”. Às 7 da
manhã do dia seguinte, a oportunidade surgiu.

— Consegui a vaga no dia 31 de março, mas eu já estava muito mal —
relembrou — Fui entubada e tive duas paradas cardíacas. Fiquei em coma
induzido por seis dias e, quando acordei, vi que minhas mãos e pés
estavam enfaixados. Os médicos demoraram um pouco para me falar que iam
amputar, mas eu já sabia.

As cirurgias ocorreram nos dias 18 e 19 de abril e, de acordo com
ela, sua reação foi “tranquila”. Ela relembra que “só queria saber se
poderia ter uma vida normal” e “o mais independente possível”. Após
receber alta, no dia 26 daquele mês, a jovem voltou para casa e, desde
então, tenta se adaptar às mudanças. Em maio, publicou um vídeo contando
sua história e pedindo adesão às rifas que passaria a fazer para ajudar
nos gastos.

De lá para cá, já conquistou mais de 200 mil seguidores no Instagram e
uma “vaquinha” organizada pela página “Razões para Acreditar”. O
objetivo é arrecadar R$ 520 mil para arcar com os custos das quatro
próteses. Enquanto aguarda o resultado das doações, que até o momento
acumulam mais de R$ 180 mil, ela diz que “não fica triste”, porque sabe
que “existem muitas coisas piores”. Com serenidade, Gabrielle sintetiza:
“fiquei muito feliz só de estar viva”.

Amputação não foi erro médico
Segundo o urologista Daher Chade, embora a infecção urinária seja
associada ao seu tipo mais comum, quando acomete apenas a bexiga, a
doença pode atingir qualquer órgão que tenha a ver com o sistema
urinário. Na maior parte das vezes, ela se dá como uma cistite, quadro
que costuma ser mais leve. No entanto, o rim também pode ser infectado,
originando uma pielonefrite. Nesses casos, pode evoluir para quadros
mais graves.

— Na cistite, a bactéria está na bexiga. Quando ela está no rim, pode
entrar na corrente sanguínea e se espalhar pelo corpo — explicou. —
Então, é possível evoluir para uma infecção no pulmão, cérebro, coração,
enfim. E aí se torna algo muito mais grave, causando uma infecção
sistêmica. A pessoa passa a ter pressão baixa e isso faz com que o
coração também não aguente se não for tratado de forma rápida.

Ainda de acordo com Chade, esta infecção sistêmica, também chamada de
sepse, requer medicamentos que ajudem a manter a pressão. Eles reduzem a
circulação sanguínea, direcionando o sangue para as principais partes
do corpo, que são o cérebro e o coração. Mas, afirmou, ainda que não
seja em todos os casos, o uso desses remédios contribui para que os
membros sejam necrosados. (Veja as causas, sintomas e tratamentos
abaixo).

“O importante é não desistir”
Hoje, Gabrielle faz fisioterapia duas vezes por semana e tem
acompanhamento psicológico. Ela comenta que está se preparando para
colocar as próteses, mas ainda passa por alguns desafios. Para ir ao
médico, por exemplo, precisa de ajuda para entrar e sair do carro, que
mal consegue acomodar a cadeira de rodas que usa atualmente. A jovem
conta principalmente com o apoio da mãe, Regina, que deixou de trabalhar
como vendedora para ajudá-la dentro de casa.

Aos 51 anos e com asma no estágio 5, ela não pode pegar peso. Após
ter acompanhado o caso da filha, ela tem passado por crises de ansiedade
intensas. Ao GLOBO, Regina diz estar “vivendo à base de remédios”, mas
que começou a se sentir melhor quando viu que a jovem começou a receber
apoio na internet — e que a perspectiva de conseguir as próteses, antes
distante, agora é mais próxima da realidade.

— Meu primo tem que estar aqui para ajudar, porque ela não consegue
me pegar. É difícil, a cadeira não cabe no porta-malas, então ele sempre
vai bem espremidinho — disse Gabrielle. — Minha cadeira também não é
adaptada pra mim, não consigo andar sozinha com ela, que é emprestada e
muito pesada. Além disso, estou dormindo na cama do hospital, que uma
mulher que não se identificou alugou para mim.

Com o sonho de ser influenciadora digital, ela destaca que está
contente por ver “quantas pessoas boas existem no mundo”, embora ainda
esteja com vergonha de falar abertamente sobre si na internet. Agora,
Gabrielle recebe mensagens carinhosas de todo o país e afirma que, se
pudesse responder a todos, diria que “tudo tem uma nova história” e,
“independentemente do problema, o mais importante é não desistir”.

— Eu sempre pensei que existem pessoas boas, mas nunca imaginei que
fossem tantas. Estou muito feliz porque vejo que a bondade do mundo
prevalece. Tem gente que não ajuda com dinheiro, mas tenho recebido
muitas mensagens lindas e orações também. É muito bonitinho ver esse
carinho — Não é porque aconteceu uma coisa ruim que está tudo acabado.
Tudo tem um recomeço.

O que provoca uma infecção urinária?

Chade explicou que não existe causa única para a infecção, mas que
existem fatores que contribuem para que ela ocorra. São eles: pouca
ingestão de líquido, prender o xixi, aumento da frequência da atividade
sexual, problemas intestinais e doenças que baixem a imunidade, como a
diabete;

“No caso do aumento da atividade sexual, se a mulher (que tem
mais predisposição a desenvolver o quadro) começa a perceber que sempre
ocorre a infecção, aí ela precisa fazer um tratamento preventivo. É
diferente. Nesses casos, o tratamento preventivo é feito com urologista,
com medicação”, disse Chade;

Quais são os sintomas e como é o tratamento?

Os sintomas de uma infecção urinária simples (cistite) são: dor e
ardência ao urinar, aumento da frequência urinária e até sangue na
urina. Já no caso da pielonefrite, os sintomas podem ser: febre,
calafrio e mal-estar;

Segundo Chade, o primeiro passo é confirmar que a infecção foi
causada por uma bactéria, já que existem infecções causadas por outros
microrganismos, como a candidíase;

No caso da infecção urinária simples, o tratamento é curto e
feito com antibióticos, muitas vezes com dose única. Já no caso de uma
infecção complicada, o tratamento é de no mínimo duas semanas.

Ag O Globo

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