segunda-feira, maio 20

Eleições de 2024 trarão uma polarização nunca antes vista no Brasil


Imagem: Internet

Se há um legado do bolsonarismo na política brasileira que veio para ficar é a presença de um segmento claramente de ultra-direita no país. Após o fim da ditadura militar assistimos a retomada gradual do processo democrático eleitoral com uma nuance bastante peculiar: com raríssimas exceções, ninguém gostava de ser categorizado como “direita” ou “ultra-direita”. Pareceu por muito tempo mais aprazível ser localizado no centro, tanto que surge o PSDB para ocupar esse recorte. Mesmo legendas como o extinto PFL e similares tinham seus principais expoentes refratários a pecha de “direitistas”.
Após junho de 2013 assistimos um encadeamento de fatos que dá lugar de fala e permite o surgimento de uma neodireita, com claros traços fascistas, que explora ao máximo a negação da política, do Estado e das forças tradicionais que a disputam. Alocados inicialmente no MBL e no Movimento Vem Pra Rua, acabam por transbordar para outros segmentos da política, inclusive tradicionais, e estes se tornam parte decisiva do caminho que leva ao impeachment da presidente Dilma, ao governo Temer, a condenação e prisão do presidente Lula e a eleição de Bolsonaro para presidente.
E, finalmente, temos em 2018 a materialização disso tudo numa candidatura, com forte presença da pauta de costumes ultra-conservadora, somada a uma visão neoliberal da economia e ataque constantes a democracia. Assim Bolsonaro se elege, e assim ele governa durante 4 anos.
A reeleição de Lula não desmonta esse campo, as ideias da ultra-direita passam a contar com parlamentares em grande quantidade e expressão, são sozinhos 1/5 da Câmara dos Deputados, tem bancada considerável no Senado e nas Assembleias Legislativas, elegeram os governadores dos 3 maiores estados do Brasil, há um campo conservador cristalizado, representado eleitoralmente pelo PL e tendo como satélites o Republicanos e o Novo.
Mesmo numa possível condenação de Bolsonaro que o torne inelegível, esse campo não morre, diversificou seus porta-vozes, ganhou um certo grau de refinamento, mas não abriu mão de suas pautas, continua no diapasão costumes e economia neoliberal, executa isso nos estados da federação em que governa.
Daí vem a eleição para prefeitos e vereadores de 2024, quem já viveu alguns pleitos desses sabe o esforço que as forças locais da política fazem para tentar desnacionalizar a pauta, montar alianças municipais “em defesa da cidade”, que junte esquerda e direita, isso realmente foi viável e existiu em grande parte da Nova República, mas não parece ter o mesmo ambiente para ocorrer na dimensão que tinha nos grandes centros urbanos e capitais, visto o clima de polarização que se instaurou.
Se torna imperioso derrotar nas capitais e grandes cidades do Brasil os que representam Bolsonaro, seu legado e seu campo político, garantir que o movimento iniciado com a eleição do presidente Lula para um terceiro mandato e as mudanças que vem ocorrendo na economia, a retomada de um ambiente democrático e do local de fala do Brasil no mundo vá construindo bases eleitorais mais sólidas, formadas pelos vários partidos e lideranças que compuseram a frente ampla que levou a eleição do petista.
É preciso chamar a responsabilidade cada liderança, cada partido, cada cidadão brasileiro para a importância da disputa que se avizinha, e obviamente não desconhecer as peculiaridades que marcam as eleições nas cidades pelo interior do país, em que os lados da política acabam embotados por contendas paroquiais e que algumas vezes jogam pessoas até progressistas para dentro de partidos que não condizem com suas ideias, mas essa é uma oportunidade também para reorganizar esse tabuleiro, na medida do possível.
2024 marca o meio do mandato do presidente Lula, um momento crucial para construir um apoio mais sólido, e já anuncia o que espera o Brasil e o mundo em 2026, então arregacemos as mangas, encaremos o desafio, e lutemos para por o Brasil de volta nos trilhos da democracia.


Thiago Modenesi

É professor Universitário, Historiador,
Pedagogo e editor na Editora Quadriculando.

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