domingo, agosto 31

Tarifaço de Trump abala planos de Tarcísio para 2026

A tarifa de 50% imposta por Trump ao Brasil afeta exportações de SP e pressiona Tarcísio, que tenta se equilibrar entre bolsonarismo e mercado.

Medida de Trump afeta exportações de SP e complica estratégia de Tarcísio para a eleição presidencial de 2026.
Medida de Trump afeta exportações de SP e complica estratégia de Tarcísio para a eleição presidencial de 2026. Foto: Reprodução

A decisão do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aplicar uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros teve repercussões imediatas na política nacional. Justificando a medida como resposta ao que chamou de “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro (PL), Trump gerou uma crise diplomática e econômica que atingiu em cheio o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), considerado até então um dos nomes mais viáveis da direita para disputar a Presidência da República em 2026.

Impacto direto nas exportações paulistas

São Paulo responde por cerca de um terço das exportações brasileiras para os EUA. Em 2025, os principais produtos enviados ao mercado americano pelo estado foram aeronaves da Embraer, sucos de frutas e equipamentos de engenharia. Após o anúncio da sobretaxa, empresários do setor de suco de laranja alertaram que a medida pode inviabilizar o setor, colocando em risco milhares de empregos e investimentos.

O impacto econômico gerou cobranças imediatas ao governador, que inicialmente adotou um discurso alinhado com Bolsonaro e culpou o governo federal pela crise. Segundo fontes ouvidas pela Folha de S.Paulo, aliados de Tarcísio consideraram esse movimento seu “maior erro político” até o momento.

Repercussões políticas: entre o centrão e o bolsonarismo

Bolsonaro alçou Tarcísio à política ao nomeá-lo ministro técnico da Infraestrutura. Desde então, setores empresariais passaram a vê-lo como o rosto de uma direita mais moderada. No entanto, sua tentativa de transferir a crise para o campo político — inclusive com o pedido para que Bolsonaro fosse aos EUA negociar com Trump, apesar de o ex-presidente estar com o passaporte retido por decisão judicial — causou estranheza no Supremo Tribunal Federal (STF) e foi mal recebida no meio político.

Internamente, líderes do mercado questionaram a independência de Tarcísio em relação ao bolsonarismo. Alguns chegaram a perguntar, segundo relatos, se o apoio a ele não significaria na prática a volta de Bolsonaro por meio de um representante.

Racha com o bolsonarismo e tentativa de recuo

A tentativa de se reaproximar do empresariado e adotar um discurso mais pragmático, voltado ao impacto econômico para São Paulo, também provocou críticas dos setores mais radicalizados da direita. Usuários das redes sociais passaram a chamar Tarcísio de “bolsonarista de ocasião” e o acusaram de abandonar o ex-presidente em um momento de crise.

O governador afirma, nos bastidores, que só concorrerá à Presidência em 2026 caso seja ungido publicamente por Bolsonaro. No entanto, a família Bolsonaro articula outros nomes para a disputa, como Eduardo Bolsonaro ou Michelle Bolsonaro, com apoio do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, de olho no fundo partidário e no fortalecimento da legenda no Congresso.

Um cenário político fluido e instável

Apesar do abalo, Tarcísio ainda é visto como favorito à reeleição em São Paulo, conforme indicam as últimas pesquisas. Setores do seu governo defendem que ele adie qualquer pretensão presidencial e mantenha o foco na administração estadual.

Especialistas em comércio exterior e analistas políticos alertam, no entanto, que a crise pode se desdobrar para além da tarifa em si, com reflexos em investimentos e acordos de longo prazo com os Estados Unidos. Ainda que o déficit comercial brasileiro com os EUA possa ser usado como argumento de contenção, os efeitos práticos da medida de Trump tendem a enfraquecer o agronegócio e a indústria paulista.

O governo federal reage e a disputa se intensifica

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aproveitou a crise para reforçar o discurso nacionalista, acusando os bolsonaristas de serem “traidores da pátria”. A narrativa fortalece o posicionamento do Planalto diante do centrão e da oposição, reacendendo a retórica polarizada típica das campanhas eleitorais.

Se a crise escalar, Lula poderá enfrentar desgaste perante o setor produtivo, ainda que não tenha ligação direta com a decisão de Trump. Analistas veem a relação de Bolsonaro com o ex-presidente americano como um fator de instabilidade econômica, o que lhe traz poucos ganhos.

A crise desencadeada pela tarifa de 50% imposta por Donald Trump ao Brasil colocou Tarcísio de Freitas numa encruzilhada política. Ao tentar agradar tanto ao bolsonarismo quanto ao setor empresarial, o governador acabou tensionando os dois lados. Enquanto busca se reposicionar como líder responsável pelos interesses de São Paulo, enfrenta questionamentos sobre sua autonomia política e capacidade de articulação nacional.

O desfecho da situação ainda é incerto, mas o episódio pode redefinir o tabuleiro da eleição presidencial de 2026. Como disse um ministro do STF, no Brasil, “as semanas duram meses” na política.

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